
Oficinas terapêuticas, rodas de conversa, atividades artísticas e escuta qualificada fazem parte da rotina do Hospital Escola Portugal Ramalho (HEPR), única unidade psiquiátrica da rede pública de Alagoas. Equipamento assistencial da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), o hospital completou 70 anos em 2026, atende exclusivamente pelo SUS e trabalha articulado à Rede de Atenção Psicossocial (Raps).
O modelo atual é resultado de uma mudança que começou há mais de três décadas e envolveu estrutura, equipes e, principalmente, a forma de olhar o paciente. Quem acompanhou essa trajetória lembra de um tempo em que o isolamento e a internação eram a resposta para qualquer crise.
O psiquiatra Audenis Lima de Aguiar Peixoto chegou ao HEPR na década de 1980 e ocupou, por vários mandatos, as direções clínica e geral do hospital. Ele conta que, naquele tempo, o aparelho de eletroconvulsoterapia já era peça de museu, mas os pacientes ainda ficavam em isolamento total, o que os deixava mais agressivos e não ajudava na recuperação.

“Quando abolimos definitivamente o isolamento e os métodos punitivos, passamos a olhar para o paciente como uma pessoa com história, direitos e voz”, afirma. Em vez disso, a equipe passou a investir em escuta qualificada, arteterapia, tratamento individualizado e apoio da família, sempre que possível.
A virada dos anos 1990
Segundo Audenis, o processo começou depois da Constituição de 1988 e da criação do SUS, quando Alagoas passou a se ajustar ao novo modelo de atenção à saúde mental. No início dos anos 1990, os recursos gerados pelos atendimentos do hospital passaram a ser repassados pelo Ministério da Saúde diretamente à unidade, o que regularizou o abastecimento de medicamentos, alimentos e materiais.
Com isso, o hospital reformou o prédio, construiu enfermarias mais amplas e arejadas, ampliou a equipe multiprofissional e criou seus dois primeiros atendimentos no modelo de Centro de Atenção Psicossocial (Caps), um geral e outro para pessoas com dependência química.
Da mesma época são as festas abertas à comunidade na Páscoa, no São João e no Natal e o Maluco Beleza, bloco carnavalesco de inclusão de pessoas em sofrimento mental que até hoje sai no entorno do hospital.
O paciente além do diagnóstico
Para a assistente social Mariana Braga, que acompanhou boa parte dessa história, a principal mudança veio com o trabalho em equipe multiprofissional. Ela lembra que, quando começou no hospital, qualquer alteração de comportamento levava à internação, e o estigma era tão forte que servidores que não se adaptavam em outros órgãos eram transferidos para o HEPR como punição.
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“Somente com o surgimento do trabalho em equipe foi possível entender que o paciente não era apenas ‘mente’, mas uma série de fatores que interferiam em seu bem-estar”, ressalta. Com os Caps e as ações de reinserção social, segundo Mariana, os pacientes passaram a ser vistos como usuários, cidadãos com direito à vida social e a um tratamento acolhedor.
Como é o cuidado hoje
O cuidado no HEPR é feito por uma equipe multiprofissional com psiquiatras, médicos clínicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, nutricionistas e odontólogo. O hospital trabalha integrado aos Caps e às residências terapêuticas da Raps, com foco na reinserção social dos pacientes.
O HEPR tem 160 leitos, segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), e opera, em média, com 120. De janeiro a setembro de 2026, a emergência do hospital registrou 13.240 consultas de profissionais de nível superior e 6.477 atendimentos de urgência com observação de até 24 horas.
O número de consultas cresceu ao longo do ano, de 1.281 em janeiro para 1.760 em setembro, o maior do período. Em média, foram cerca de 1.470 consultas e 720 atendimentos de urgência por mês.
Formação de novos profissionais
De acordo com Audenis, o hospital implantou a primeira Residência Médica em Psiquiatria de Alagoas, junto com a de Enfermagem Psiquiátrica, e hoje é responsável pela formação em saúde mental dos internos de Medicina da Uncisal e da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Para ele, a pesquisa e a atualização constante das equipes foram decisivas para a melhora da assistência.
O psiquiatra Igor de Oliveira Pinto, preceptor da Residência Médica e integrante da Comissão de Revisão de Prontuário e Parecer Médico do HEPR, explica que os residentes aprendem a enxergar o paciente além do estigma e a tratá-lo sem as práticas coercitivas do passado. “Mesmo diante dos quadros mais graves, o cuidado deve preservar os direitos e a autonomia do indivíduo sempre que possível”, defende.
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Para Igor, uma psiquiatria baseada em ciência é, antes de tudo, comprometida com a população. “Uma prática que não se curva a preconceitos, que questiona e que se mantém próxima daqueles que mais sofrem e que, muitas vezes, têm menos acesso aos tratamentos de que precisam”, completa.
Serviço
O Hospital Escola Portugal Ramalho fica na Rua Oldemburgo Paranhos, s/n, no bairro do Farol, em Maceió, e atende pelo telefone (82) 3315-2491. A emergência psiquiátrica funciona 24 horas, com porta aberta, e atende tanto por demanda espontânea quanto por encaminhamento.
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