
A Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) realiza nesta quarta (14) e quinta-feira (15), uma capacitação voltada à implantação do exame de DNA-HPV Oncogênico, utilizado no rastreamento do câncer do colo do útero. O treinamento reúne profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) das regiões do Marajó I, Marajó II e Tocantins, com o objetivo de preparar as equipes municipais para a utilização do novo exame, que permite identificar a presença de tipos do vírus HPV associados ao desenvolvimento da doença, ampliando as possibilidades de prevenção e diagnóstico precoce.
A iniciativa acontece por meio da Coordenação por meio da Coordenação Estadual de Atenção Oncológica (Ceao) e da Coordenação Estadual de Saúde da Família (Cesaf), em parceria com o Instituto Evandro Chagas (IEC). A programação também contempla profissionais das equipes de Consultório na Rua, trabalhadores envolvidos no atendimento a pessoas com HIV/Aids e técnicos regionais responsáveis pelas ações de saúde da mulher e controle do câncer.
O exame de DNA-HPV representa uma mudança importante na forma de prevenir o câncer do colo do útero, pois diferentemente do exame preventivo tradicional, conhecido como Papanicolau, que identifica alterações nas células do colo do útero, o novo teste detecta a presença de tipos do HPV que podem provocar essas alterações. Outra vantagem é que, quando o resultado é negativo, a mulher pode repetir o rastreamento após 5 anos, conforme as recomendações do Ministério da Saúde, reduzindo a necessidade de exames frequentes.
Responsável pela implantação do teste no Pará, a representante da Coordenação Estadual de Atenção Oncológica da Sespa, Michele Monteiro, explica que o Estado vem trabalhando desde 2025 na organização da rede para incorporar a nova tecnologia. Segundo ela, mais de 5 mil exames já foram realizados e os 144 municípios paraenses passaram por ações de atualização e capacitação. “A partir do momento em que o exame dá negativo, a mulher só precisa repetir daqui a 5 anos. Isso facilita muito mais a adesão ao rastreamento. É um exame extremamente eficiente, com menor possibilidade de resultados falsos quando comparado ao exame citopatológico tradicional”, destacou Michele.
A coordenadora explica ainda que o procedimento de coleta é semelhante ao preventivo convencional, mas o material passa a ser armazenado em um meio líquido e encaminhado para análise laboratorial. O teste permite identificar, entre outros, os tipos 16 e 18 do HPV, considerados de maior risco para o desenvolvimento do câncer do colo do útero. Quando esses tipos são detectados, a paciente é encaminhada para avaliação por colposcopia. Nos casos de outros tipos oncogênicos, o mesmo material coletado pode ser utilizado para uma análise complementar, sem necessidade de uma nova coleta.
No Pará, o Instituto Evandro Chagas atua como referência para o processamento dos exames, enquanto o Hospital da Mulher integra a rede de atendimento para investigação dos casos que necessitam de avaliação especializada. Quando há confirmação de câncer, as pacientes são encaminhadas para unidades de alta complexidade, como o Hospital Ophir Loyola e o Hospital Universitário João de Barros Barreto, conforme os fluxos de atendimento estabelecidos.
Ampliação do acesso
Além da atualização dos profissionais, a capacitação busca organizar o atendimento nos municípios para que mais mulheres tenham acesso ao rastreamento, especialmente aquelas que vivem em localidades distantes dos centros urbanos ou enfrentam dificuldades para procurar os serviços de saúde.
Entre as mudanças previstas está a ampliação da faixa etária atendida, passando de 30 a 49 anos para 30 a 64 anos, além da introdução da autocoleta, modalidade que permite à própria paciente coletar o material necessário para o exame, com orientação da equipe de saúde. A estratégia pretende facilitar o acesso de mulheres que enfrentam barreiras geográficas, sociais ou pessoais para realizar o procedimento. “A autocoleta é fundamental principalmente para os lugares mais distantes e para as pessoas em situação de vulnerabilidade. Com essa possibilidade, conseguimos diminuir barreiras como a vergonha, o medo e as dificuldades de acesso, oferecendo mais oportunidades para que essas pessoas realizem o rastreamento”, explicou Michele Monteiro.
Para a enfermeira Carla Barbosa, que atua no Marajó, a capacitação representa uma oportunidade de melhorar o acompanhamento das mulheres da região, onde a distância entre as comunidades e os serviços de saúde ainda é um desafio. Segundo ela, a necessidade de retornos frequentes para a realização do preventivo pode dificultar a continuidade do acompanhamento. “No Marajó, temos um problema muito grande de adesão dessas mulheres. O fato de elas precisarem retornar frequentemente para fazer o preventivo acaba dificultando esse acompanhamento. Com o DNA-HPV, se estiver tudo normal, elas terão mais tempo para se organizar até o próximo exame. Acredito que isso vai facilitar o rastreamento e trazer mais tranquilidade para essas mulheres”, relatou a enfermeira.
Prevenção e diagnóstico precoce
A implantação do exame integra as novas diretrizes nacionais para o rastreamento do câncer do colo do útero e faz parte das estratégias do Ministério da Saúde para reduzir a incidência e a mortalidade pela doença. A proposta combina a vacinação contra o HPV, a realização de exames mais precisos e a garantia de acompanhamento das pacientes que apresentarem alterações.
Durante a abertura da capacitação, a diretora adjunta do Departamento de Atenção ao Câncer do Ministério da Saúde, Flávia Alvarenga, destacou a importância da participação dos profissionais na implantação da nova estratégia e reconheceu os avanços do Pará na organização das ações de prevenção. “Vocês estão fazendo parte de uma história que estamos começando no nosso país, de tentar eliminar uma doença que ainda causa tanto sofrimento e mata tantas mulheres. Quero parabenizar o Estado do Pará por todo o trabalho que vem desenvolvendo. Vocês estão bem à frente de muitos outros estados brasileiros em relação a essa causa”, afirmou.
Capacitação
Ao longo dos dois dias os participantes recebem orientações sobre o HPV, vacinação, novas diretrizes de rastreamento e organização dos serviços municipais. A programação também aborda a coleta do exame, o acompanhamento das pacientes, a utilização dos sistemas de informação em saúde e as estratégias para aumentar a participação das mulheres nas ações preventivas.
No segundo dia as atividades serão concentradas em orientações práticas sobre a coleta e o fluxo do exame, desde o acondicionamento e transporte do material até o processamento laboratorial e a entrega dos resultados. Também serão discutidas formas de abordagem das pacientes, estudos de caso e a importância de garantir a continuidade do cuidado quando houver necessidade de investigação ou tratamento.
Texto: Giullianne Dias – Ascom Sespa
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