
A história de Alice Ferreira como agente de desenvolvimento social do programa SuperAção SP não é apenas uma escolha profissional – é o reflexo de sua própria trajetória de vida. Com um olhar empático e uma escuta acolhedora, Alice transforma a dor e a vulnerabilidade do seu próprio passado em combustível para resgatar a dignidade e a esperança de famílias que enfrentam momentos de extrema fragilidade.
A relação de Alice com a transformação social começou no início dos anos 2000 em Juquiá, no Vale do Ribeira, uma das regiões de menor índice de desenvolvimento socioeconômico de São Paulo. Formada em Processamento de Dados pelas Faculdades Integradas do Vale do Ribeira, em Registro, ela teve a oportunidade de ser instrutora do Programa Escola da Família, uma parceria entre a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e o Instituto Ayrton Senna. Durante dois anos, ministrou aulas do Pacote Office e ferramentas de inclusão digital para a comunidade local.
“Essa experiência foi muito forte na minha vida. Pela primeira vez, pude perceber o impacto social que um programa tem na vida das pessoas: a transformação. A oportunidade que aquelas pessoas carentes não tinham, passaram a ter por meio do meu trabalho”, recorda.
Contudo, a caminhada de Alice também foi marcada por severos obstáculos pessoais e econômicos. Após se casar, mudou-se para Indaiatuba em 2019 com a família. Afastada do mercado formal para cuidar dos filhos, João Victor e Maria Eduarda, ela se viu presa em um relacionamento abusivo, marcado por violência psicológica.
“Ele me impedia de trabalhar, de me desenvolver profissionalmente. Quando eu queria estudar para concurso, às vezes ele incentivava, outras vezes se revoltava e quebrava meu computador. Eu fiquei um longo período fazendo atividades domésticas fora do mercado de trabalho”, conta. Em 2023, buscando proteger a si e aos filhos, tomou a decisão de sair de casa apenas com as roupas do corpo e recorrer à Justiça.
Durante o processo, Alice e os filhos precisaram passar 47 dias separados em acolhimentos institucionais: as crianças na Associação Beneficente ABID e Alice na Comunidade Farol. A intervenção da rede socioassistencial e do Ministério Público garantiu a reunião da família. Alice recebeu o benefício do Aluguel Social, além do suporte do programa Caminho das Rosas – iniciativa da Guarda Civil Municipal (GCM) de Indaiatuba voltada à proteção de mulheres vítimas de violência doméstica –, do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e do Bolsa Família.
Para garantir o sustento da casa, Alice enfrentou a informalidade e diversos trabalhos fora de sua área de formação, atuando em lojas, limpeza doméstica, triagem de recicláveis industriais e operação de uma empresa de carvão. A reviravolta veio quando foi incentivada por uma assistente social a participar do processo seletivo da Fundação Getulio Vargas (FGV) para o programa SuperAção SP.
Sua aprovação como agente marcou o início de uma nova fase. “A oportunidade que recebi trouxe a minha dignidade de volta e me permitiu proporcionar uma qualidade de vida melhor aos meus filhos. Foi um divisor de águas”, destaca.
Na linha de frente desde março deste ano, Alice já acompanha cerca de 20 famílias no município de Indaiatuba. A acolhida nas residências tem sido extremamente positiva, em grande parte devido à transparência e à sensibilidade de sua abordagem.
“A parte que mais gosto é atuar diretamente com as famílias. Meu desafio é ser uma ponte: de um lado, temos a vulnerabilidade; do outro, os talentos e o potencial de cada um. Tudo o que vivi me possibilita a ter um olhar mais sensível. Mostrar que é possível mudar essa realidade social traz esperança”, afirma.
“A Alice é um exemplo de superação mesmo”, avalia a supervisora responsável pela agente, Cátia Muniz. “Supervisiono cinco municípios e ela é sem dúvidas uma das minhas melhores agentes. Já tem uma quantidade de famílias aderidas bem expressiva, consegue ter empatia porque já esteve nesse lugar de vulnerabilidade. Além disso, mostra para essas pessoas que elas podem superar essa situação, assim como ela superou.”
O SuperAção SP é um programa do Governo de São Paulo que integra políticas públicas de diferentes áreas em uma jornada completa de atendimento às famílias em situação de vulnerabilidade social, com acompanhamento individualizado para a promoção da autonomia. A iniciativa é voltada às famílias residentes no estado, inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) e com renda familiar por pessoa inferior a meio salário-mínimo nacional.
O programa atua por meio de duas trilhas de apoio. Na Trilha de Proteção Social, famílias em situação de maior vulnerabilidade recebem acompanhamento por meio da política de assistência social, além de auxílio mensal para atendimento de necessidades básicas, em caso de insegurança alimentar grave constatada. Já na Trilha de Superação da Pobreza, o foco é a capacitação, a qualificação profissional e a inclusão no mundo do trabalho, com acompanhamento contínuo e diversos auxílios e incentivos financeiros ao longo da jornada.
O atendimento é estruturado em três módulos complementares: Proteger, voltado ao acesso às políticas públicas disponíveis na região; Desenvolver, com foco em educação e qualificação profissional; e Incluir, orientado à inserção no mercado de trabalho por meio do emprego formal ou do empreendedorismo.
A atuação ocorre diretamente nos territórios, com os agentes de SuperAção SP visitando as famílias em suas casas para realizar um diagnóstico e construir com elas o Plano de Desenvolvimento Familiar (PDF), um documento que organiza metas e oportunidades de acordo com o perfil profissional, educacional e social de cada família.
O documento traça metas e ações com foco na inclusão produtiva, no fortalecimento de vínculos comunitários e no acesso a serviços de saúde, educação, habitação e renda. O acompanhamento tem duração de dois anos, seguido de seis meses de monitoramento. Os auxílios e incentivos podem ultrapassar R$ 10 mil ao longo de todas as etapas.
Além disso, o trabalho dos Agentes inclui conectar as famílias a políticas públicas às quais já têm direito, mas que muitas vezes não acessavam por falta de informação, orientação ou dificuldade de acesso. O acompanhamento pode durar até dois anos, com monitoramento adicional para avaliação dos avanços.
O SuperAção SP foi lançado em maio de 2025 com vocação para operar em escala. A primeira onda teve a adesão de 48 municípios. Oito deles (Barueri, Cabreúva, Campinas, Embu das Artes, Itaquaquecetuba, Paulínia, São Roque e São Vicente) foram os pilotos. Em março de 2026, os outros 40 novos municípios foram incorporados simultaneamente ao programa, completando os previstos no desenho original.
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