Há entrevistas que começam falando sobre um tema específico e terminam nos levando a refletir sobre valores, história e identidade.
Foi exatamente essa sensação que tive ao conversar com Ana Marquito.
À primeira vista, poderíamos imaginar que nossa conversa seria apenas sobre cavalos. Mas bastaram poucos minutos para perceber que estávamos diante de algo muito maior. Falávamos sobre tradição, família, patrimônio cultural, turismo, desenvolvimento econômico e, principalmente, sobre uma paixão capaz de atravessar gerações.
O Mangalarga Marchador deixou de ser apenas uma raça para se tornar um verdadeiro símbolo do Brasil.
Enquanto conversávamos, Ana falava com brilho nos olhos. Não era apenas conhecimento técnico. Era a fala de quem cresceu cercada por cavalos, aprendeu a respeitar a natureza e descobriu que preservar uma tradição é também preservar parte da história do nosso país.
Ao iniciar nossa conversa, perguntei de onde vinha essa ligação tão forte com o universo equestre.
"Desde a infância, meu avô materno criava cavalos da raça Campolina em Muriaé. Eu adorava acompanhar as exposições agropecuárias e a rotina da fazenda. Foi ali que nasceu essa paixão."
É interessante perceber como muitas grandes histórias começam dentro da própria família. No caso de Ana, foram as lembranças da fazenda, das cavalgadas e da convivência com os animais que despertaram um sentimento que permanece vivo até hoje.
Mais tarde, sua relação com o Mangalarga Marchador se tornaria ainda mais intensa.
"O Mangalarga Marchador entrou na minha vida através do meu ex-marido, que era um grande criador e ex-presidente da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador."
Foi nesse momento que a admiração deu lugar ao estudo, à convivência diária e ao profundo entendimento sobre a importância da raça para o Brasil.
Perguntei então o que torna o Mangalarga Marchador tão especial.
Sua resposta foi objetiva.
"O que o torna tão especial é uma combinação única de conforto, resistência e temperamento."
Mas Ana foi além.
Ela explicou de maneira simples uma das maiores características da raça: sua marcha confortável.
"Graças ao apoio constante de três patas no chão, ele parece flutuar pelo terreno, proporcionando muito mais conforto ao cavaleiro durante longas cavalgadas."
Talvez seja exatamente essa combinação entre funcionalidade e elegância que tenha feito do Mangalarga Marchador uma referência internacional.
Poucas pessoas sabem, mas o Mangalarga Marchador é oficialmente reconhecido como uma raça brasileira.
Para Ana, isso representa muito mais do que um reconhecimento técnico.
"Ele traduz o espírito brasileiro: resistente, gentil, elegante e trabalhador. É a prova de que somos capazes de produzir algo único e admirado no mundo inteiro."
Ela lembra ainda que existe um museu dedicado exclusivamente à preservação dessa história, localizado em Cruzília, Minas Gerais, reforçando a importância cultural da raça.
Ao longo da entrevista, outro aspecto chamou bastante atenção.
O universo do Mangalarga Marchador movimenta turismo, eventos, hotelaria, comércio, medicina veterinária, genética, gastronomia e inúmeros outros segmentos.
Segundo Ana, trata-se de uma verdadeira cadeia econômica.
"Não vemos apenas cavalos. Vemos um ecossistema inteiro movimentado pela paixão, preservando cultura, tradição e desenvolvimento econômico."
São exposições, cavalgadas, leilões, competições e encontros que reúnem milhares de pessoas em diferentes regiões do país.
Quando perguntei se existia algum animal inesquecível, sua resposta veio acompanhada de emoção.
"Favacho Estanho foi o principal garanhão da raça e pai de inúmeros campeões nacionais. Sempre fazia questão de cavalgar com ele. Mesmo após sua partida, seu legado permanece vivo."
Foi impossível não perceber o carinho presente em cada palavra.
No universo equestre, os cavalos deixam de ser apenas animais.
Tornam-se companheiros de vida.
Outro tema importante da entrevista foi a presença feminina.
Ana acredita que esse crescimento representa uma transformação histórica.
"Quando uma mulher assume as rédeas, ela também ocupa um espaço de liderança, competência e inspiração para outras mulheres."
Ela destaca como marco histórico a eleição da Dra. Cristiana Gutierrez, primeira mulher a presidir a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador.
Talvez a resposta mais bonita de toda a entrevista tenha surgido quando perguntei o que um cavalo pode ensinar ao ser humano.
Ana respondeu:
"O cavalo nos tira do ego. Ensina disciplina, sensibilidade, respeito e presença. Caminhar ao lado dele depende da nossa capacidade de sermos justos, pacientes e verdadeiros."
Ao ouvir essas palavras, compreendi que o Mangalarga Marchador representa muito mais do que tradição.
Representa uma filosofia de vida.
Representa equilíbrio.
Representa conexão.
Representa respeito.
Uma palavra que define o Mangalarga Marchador?
Versatilidade.
O cavalo representa...
A conexão entre a força da natureza e a parceria com o ser humano.
Família e cavalo combinam?
Perfeitamente. O ambiente equestre une gerações.
Uma mulher que inspira você?
Maria da Penha.
Um sonho?
Tornar o universo equestre mais acessível para famílias e jovens.
Complete a frase:
"O Mangalarga Marchador é..."
"...a raça símbolo do Brasil, reconhecida mundialmente pelo conforto, versatilidade e pela harmonia entre homem e animal."
O Portal Connect Cultura agradece à Ana Marquito por compartilhar sua história, sua paixão e seus conhecimentos sobre um dos maiores patrimônios da cultura brasileira.
Que esta entrevista inspire novas gerações a conhecerem mais profundamente o universo equestre e a valorizarem uma tradição que faz parte da identidade nacional.
"O Mangalarga Marchador traduz o espírito brasileiro: resistente, elegante, trabalhador e profundamente conectado à nossa história."
— Ana Marquito
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